ABELHAS NATIVAS NA POLINIZAÇÃO DE HORTALIÇAS: CONVERSA COM CRISTIANO MENEZES DA EMBRAPA

Nos meses de agosto e setembro aconteceu uma série de lives nas redes sociais da ISLA Sementes, sobre temas relacionados ao cultivo de horta em casa e também de forma comercial. Em uma destas conversas Diana Werner e Cristiano Menezes falaram sobre as abelhas nativas e a relação delas como polinizadoras na agricultura.

QUEM É O CRISTIANO?

Cristiano é licenciado em Ciência Biológicas pela Universidade Federal de Uberlândia e Doutor em Entomologia pela Universidade de São Paulo. Há 8 anos é pesquisador junto à EMBRAPA Meio Ambiente, em Jaguariúna – SP. O objetivo principal do seu trabalho é o desenvolvimento de tecnologia visando o uso comercial destas abelhas, tanto para a polinização na agricultura como para os seus produtos como o mel, própolis entre outros. Atualmente desenvolve estudos com abelhas nativas do Brasil, mais especificamente com as meliponas (abelhas do gênero Meliponini).

Nesta conversa Cristiano apresentou os resultados dos trabalhos mais recentes e contou mais detalhes sobre o cenário atual da meliponicultura no Brasil. Separamos alguns trechos para esta matéria:

COM QUAIS ABELHAS OS TRABALHOS ESTÃO SENDO REALIZADOS?

Atualmente o laboratório trabalha com as espécies nativas da região de São Paulo, as que têm maior potencial econômico e maior possibilidade de manejo. No Estado de São Paulo são cerca de 60 espécies de abelhas sem ferrão, aproximadamente. Nem todas as espécies se adequam aos sistemas de criação.

As abelhas brasileiras representam cerca de 10% da biodiversidade de abelhas no mundo. Aproximadamente 20 mil espécies de abelhas conhecidas. A maioria delas é absolutamente silvestre, e não é possível a criação das mesmas. Já as abelhas sem ferrão no mundo são cerca de 550 espécies e destas, 250 estão presentes naturalmente no brasil. Cada espécie apresenta peculiaridades únicas.

Abelha Jataí em flores de cenoura (Fonte: EMBRAPA)

As principais abelhas sem ferrão são:

  • JataíTetragonisca angustula – A espécie de abelha nativa mais comum no sul do Brasil, também é chamada de mosquitinho-amarelo, abelha-ouro ou abelha-mirim. É atualmente a espécie de abelha sem ferrão mais utilizada para criação racional em caixas devido a sua facilidade de manejo e qualidade de mel produzido.
  • Mandaçaia Melipona quadrifasciata – Conhecida popularmente por Mandassaia, Mandassaí. Encontrada naturalmente nas regiões sul e sudeste do Brasil.
  • GuaraipoMelipona bicolor – Como o próprio nome diz, apresenta faixas de coloração amarela e preta, sendo muito semelhante à abelha Appis mellifera. Seus outros nomes são: abelha-fura-terra, graipu, e guarapu. 
  • UruçúMelipona scutellaris – Também chamada de Iruçu e Urussu-boi. É comum na região nordeste do Brasil, sendo utilizada para polinização comercial de frutas regionais.
Abelha Mandaçaia – Melipona quadrifasciata (Fonte: EMBRAPA)
Abelhas Guaraipo – Melipona bicolor (Fonte: CPT)
Abelha Uruçu – Melipona scutellaris (Fonte da imagem: CPT)

QUAIS SÃO AS PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DAS ESPÉCIES TRABALHADAS?

“Este é um aspecto bastante interessante no mundo das abelhas-sem-ferrão. Quando a gente olha os outros grupos de abelhas, por exemplo o grupo das abelhas africanizadas, as espécies são TODAS mais ou menos parecidas, apresentam basicamente os mesmos formatos de ninho. Entre as abelhas sem ferrão, não. Cada uma faz uma colônia diferente da outra. Tem abelhas que fazem o ninho em cacho, parece um cacho de uva, com os ovos separados uns dos outros. Outras colmeias como a Jataí fazem o favo em formatos de discos organizados. Algumas espécies fazem colônias gigantescas, como a Arapuá. Ela faz um ninho com mais de cem mil abelhas. Enquanto outras espécies tem poucas dezenas de abelhas, como a Lambe-Olhos. A Mandassaia tem algumas centenas de abelhas em cada colmeia. Tem uma variação muito grande de comportamentos, de tamanho… Tem abelhas tão pequenas que parecem aquelas mosquinhas de banana. Tem outras que já são de grande porte, parecem até com as abelhas africanizadas. Este é o lance legal das abelhas sem ferrão. A gente pode dentro desta grande biodiversidade, escolher com quais delas a gente vai querer criar para as diferentes finalidades que a gente tem.”

Cristiano Menezes – Embrapa Meio Ambiente
Abelha Mandaguari em flor de café

EM QUAIS CULTIVOS ESTÃO SENDO UTILIZADAS ESTAS ABELHAS?

Segundo Cristiano já existem resultados positivos consolidados em cultivos de morango, tomate, café e macadâmia. No cultivo de morango, os resultados são excelentes, tanto em sistema de túnel baixo como em estufa. Há a redução da deformação dos frutos pela ação da polinização com abelhas Jataí. Os resultados mais recentes são no cultivo de café, com as abelhas Mandaguari que apresentam populações grandes, cerca de 10 a 15 mil abelhas em cada colmeia. Desta forma é possível levar uma grande quantidade de polinizadores para as áreas de cultivo. Os estudos com Café Arábica (Coffea arabica) mostram que com as maiores populações de abelhas na área de cultivo aumentam as produtividades, melhora o tamanho dos grãos e também o sabor do café. 

Cristiano contou ainda sobre um teste recente realizado em parceria com AgroBee, que  revelou que o café cultivado perto das abelhas possui melhor mais adocicado, com sabor que durava mais tempo na boca do que o café produzido longe das abelhas.

AgroBee é uma Startup de Ribeirão Preto que realiza a integração entre produtores de abelhas (apicultores e meliponicultores) com os produtores rurais interessados nos serviços de polinização.

ABELHA JATAÍ É EFICIENTE PARA POLINIZAÇÃO DE TOMATE?

Cristiano revela que apesar das abelhas jataí serem vistas visitando as flores de tomateiro, elas não chegam realizar a polinização em si. Em cultivo protegido as abelhas de grande porte como a as Mandassaias e Uruçus são as mais eficientes, pois elas conseguem morder a flor e com a vibração desta mordida o polén vai até a parte feminina das flores. Um desafio é adaptar as casas de vegetação, melhorando as condições de temperatura durante a estadia das abelhas.

PRIMEIROS PASSOS PARA CRIAÇÃO DE ABELHAS:

  • Busque informação e conhecimento técnico sobre a produção;
  • Valorize as abelhas que ocorrem naturalmente na sua região;
  • Plante diversas espécies de flores para atrair as abelhas.

Neste link você têm acesso ao curso de Meliponicultura.

MANJERICÃO: UMA EXCELENTE OPÇÃO PARA AS ABELHAS

Entre as ervas aromáticas o manjericão é uma das mais recomendadas para áreas onde há criação de abelhas. Além de produzir flores em grande quantidade, as plantas desta espécie florescem basicamente o ano todo e atraem grande diversidade de espécies de abelhas.

Abelha nativa Jataí na polinização de hortaliças

Confira o mix de sementes de manjericão da ISLA Sementes.

Como saber qual espécie de abelha é melhor para polinizar alguma espécie de planta em específico?

Uma boa estratégia e observar as abelhas que estão naturalmente visitando as flores da sua região. É possível também baixar o livro publicado pela Associação Brasileira dos Estudos das Abelhas (A.B.E.L.H.A.) que indica algumas combinações específicas de abelhas e flores polinizadas.

Uma das melhores flores para produção de mel são as cítricas como laranja. Outra cultura que produz mel é super saboroso é o açaí, disponibilizando alimento para as abelhas na entressafra de outras flores.

Qual a ação dos produtos utilizados para controle de insetos sobre as abelhas?

Diana pergunta sobre o efeito dos produtos utilizados para controle de pragas nas plantações e Cristiano comenta sobre alguns pontos muito relevantes para o cuidado com as abelhas:

  • O uso de pesticidas afeta as colmeias, gerando mortalidade de abelhas, e também pode trazer contaminação no mel produzido;
  • O controle biológico através de entomopatógenos que tem efeito inseticida deve ser usado com cautela, pela ação sobre as abelhas. Já os que não têm efeito inseticida, como fungicidas, por exemplo são aplicados sem nenhum risco, inclusive em alguns casos as abelhas podem servir de “vetor na aplicação” destes produtos;
  • O óleo de neem apresenta leve efeito inseticida sobre as larvas das abelhas, podendo gerar deformação e morte da cria. Apesar disso o efeito é leve sobre a colmeia no geral. As aplicações nas áreas de cultivo apresentam efeito repelente, por isso podem servir como estratégia de manejo de abelhas. O recomendado é não aplicar nas épocas de florescimento das culturas para não afetar a polinização.

A polinização afeta diretamente a qualidade dos produtos agrícolas e deve ser cada vez mais valorizada e estudada. Para conferir a live na íntegra, acesse o link.

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