Como tornar o solo produtivo para garantir o sucesso da lavoura

-Então, não é por causa da terra que temos que tratá-la bem, mas por causa de nós mesmos?
– Exato – disse a terra – Eu, as plantas, os animais, vocês todos dependemos uns do outro.
Ana Primavesi

A preservação e os cuidados no manejo do solo são fundamentais para a horticultura, pois impactam  na qualidade dos alimentos e na manutenção de um sistema que seja mais produtivo, sustentável e abundante. No Brasil, fatores como o clima e o intemperismo (desgaste) dos solos acarretam na perda de nutrientes destes, o que os torna ácidos e pouco férteis. Para reverter esse cenário e garantir a produção de alimentos em sistemas cada vez mais inteligentes, é preciso reavaliar a forma de produção, tendo como foco não apenas a nutrição das plantas, mas a construção do solo. Para isso o foco principal é o aumento de matéria orgânica e a implementação de processos como a cobertura de solos e o Sistema de Plantio Direto de Hortaliças (SPDH), que vem trazendo benefícios muito significativos para os solos e, consequentemente, para a fauna, flora, produtores e consumidores.


Especialista em solos, Amanda Posselt Martins, nos concedeu entrevista durante visita a lavoura orgânica em Viamão (RS). Na foto, área de tomates cultivados em SPDH.

Conversamos com a doutora e professora Amanda Posselt Martins, especialista em solos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), para aprofundar os conhecimentos acerca da temática. Ela abordou pontos fundamentais sobre a realidade dos solos brasileiros e destacou os caminhos mais promissores para tornar estes férteis e propícios para uma produção de excelência, cada vez mais saudável. Confira os principais pontos destacados por ela durante a nossa conversa:

1 – ANÁLISE DE SOLO

É sempre necessário compreender com qual tipo de solo se está lidando e qual o estado e estágio de evolução (ou não) do seu manejo. Muitos dos solos cultivados com hortaliças são praticamente inertes (arenosos e com baixa matéria orgânica), o que caracteriza praticamente um solo inerte. Solos inertes, por mais que recebam adubação, não tem capacidade de reter os nutrientes, assim como também tem muita dificuldade de reter água, o que prejudica a sanidade e a produtividade das plantas. Muitas vezes, esses solos já se encontram em estágio avançado de degradação, pelo intenso revolvimento e consequente perda de matéria orgânica. Nesse caso, é preciso justamente acumular matéria orgânica para manter o solo produtivo e sustentável, onde os nutrientes e água ficarão estocados.


Acima, solo rico em matéria orgânica, com coloração mais viva. Abaixo, solo inerte e pouco rico para produção de alimentos

O resultado da degradação do solo é perceptível na dureza dele, assim como no déficit hídrico e nutricional que acarreta em plantas pouco desenvolvidas e com dificuldades de completar o ciclo. “Não existe solo ruim, mas solo mal manejado”, destacou Amanda, salientando que é necessário analisar os solos e trazer técnicas que vão incorporar não só nutrientes, mas também aumentar os teores de matéria orgânica, proporcionando ao local condições ideais para o crescimento das cultivares.

Saiba como conhecer melhor o solo:

Uma das nossas dicas é realizar um processo de amostragem de solo antes da semeadura, que é a primeira etapa do processo de avaliação da fertilidade do solo. Por meio dela é possível identificar os nutrientes presentes no solo e orientar os procedimentos de adubação e correção para que o sistema seja produtivo, eficiente e econômico. Aqui você confere o passo a passo!

2 – IMPACTOS DO REVOLVIMENTO DO SOLO

O começo da agricultura brasileira foi marcado pela forte importação de práticas do exterior, sobretudo após a revolução verde, com a utilização em larga escala de calcário e fertilizantes nos solos. Naquele momento, uma série de benefícios foram proporcionados, pois realmente era necessária essa suplementação de nutrientes. Porém, ainda antes dessa prática, veio o revolvimento do solo, comum em países de clima frio para promover o aquecimento do solo, mas que aqui, causou graves problemas de erosão, fazendo com que os solos perdessem os nutrientes que eram inseridos na área. “Tem muita gente que até parou de revolver porque viu a quantidade de problema que isso causava, viu a erosão, viu o solo indo embora. Mas não está se preocupando em construir solo, então segue aquele ciclo de colocar e ir embora, colocar e ir embora, e ano após ano aumentando o custo de produção com adubo e causando um impacto muito maior no ambiente”, pontuou Amanda.

A prática do revolvimento expõe o solo a uma temperatura e a uma aeração muito maior do que em seu estado natural, sem revolvimento. Isso favorece muito a atividade da fauna do solo, e, principalmente, dos microrganismos. “A gente quer atividade, quer fauna do solo, mas em um sistema em equilíbrio, que seria o ápice quando a gente chega num sistema de plantio direto. Quando tu fazes isso revolvendo, tu geras um desequilíbrio muito grande Isso é um estresse para o ambiente e para os organismos que vivem no solo. E, então, a gente começa a ter uma ação dessa fauna que não é benéfica. Porque ela começa a decompor todo aquele material que poderia ajudar a construir o solo. O carbono fixado pela fotossíntese começa a ser decomposto, vira CO2 e vai embora. Além disso, há todo o prejuízo de perder os nutrientes que já haviam sido adicionados, via erosão hídrica ou até mesmo lixiviação, por não ter planta crescendo que faz o contra fluxo do nutriente ser lavado no perfil do solo. A planta crescendo sempre é essa bomba de nutrientes para ciclar. Então, além de não estar construindo o solo, tu ainda estás perdendo os nutrientes que tu adicionastes nesse momento dos preparos da mobilização do solo”, explicou a especialista. 

3 – CONSTRUÇÃO DE SOLO PARA UM FUTURO PROMISSOR


É necessária atenção a medidas que vão trabalhar a construção do solo, como a cobertura de solos, cultivo mínino e SPDH

De acordo com Amanda, o grande problema da maior parte dos solos brasileiros é devido ao clima e a fatores de formação que temos aqui – o intemperismo de nossos solos. Desde a rocha mãe estes foram muito desgastados, o que naturalmente acarreta em solos poucos férteis e solos ácidos.  Além de não termos os nutrientes, nesse desgaste se perdem as cargas dos solos, responsáveis por segurarem os nutrientes. “O nosso solo, além dele não ter nutrientes, não tem a capacidade de segurar os nutrientes quando a gente adiciona eles. Então, no geral, são dois problemas que temos que manejar pensando em qualidade e sustentabilidade. O que muita gente, principalmente na agricultura convencional faz, é só resolver um desses problemas, que é a falta dos nutrientes. Só que se tu adicionas nutrientes em um solo que não tem capacidade de reter esses nutrientes, tu colocas o nutriente, a planta absorve o que precisa, e o resto, até quando volta para o solo pelo processo de decomposição e mineralização, vai embora. E vai para rios, mares e enfim, aí que causa o impacto ambiental do sistema em relação aos nutrientes. Vira algo cíclico porque a gente resolve só um dos problemas. Então, o primeiro passo, que eu até falo em aula e nas palestras, é a construção do solo. Temos que começar a pensar em construir essas cargas que o solo não tem”, resumiu.


Coberturas de solo proporcionam matéria orgânica e são uma das respostas para beneficiar o solo e o sistema agrícola

Ao se deparar com um solo degradado, que não tem nutrientes, é preciso pensar em ajudar o solo para que ele tenha condições mais propícias para aninhar o crescimento e bom desenvolvimento das plantas. “Essa ajuda ocorre muitas vezes via insumos, seja de origem orgânica ou mineral. Um exemplo é o calcário, uma rocha moída que auxilia a diminuir a acidez do solo e aumentar a fertilidade dele. Depois que a gente dá essa ajuda inicial, é possível produzir biomassa em cima do solo. E aí que vem o segredo inclusive do Sistema de Plantio Direto de Hortaliças (SPDH), que é tu aportares a biomassa ali e fazer essas plantas crescerem, porque quando crescerem, elas vão fazer uso do processo da fotossíntese, e quando começarem a se decompor elas vão ser as responsáveis por construir o solo. No nosso clima, os minerais dos nossos solos não tem cargas elétricas, e quem vai dar carga para reter os nutrientes e reter a água de nossos solos é a matéria orgânica. Então, construir solo é aumentar a matéria orgânica do solo. E a gente só consegue aumentar a matéria orgânica com plantas, e parando de revolver o solo”, explicou. Logo, o primeiro passo é pensar na construção do solo para que a planta cresça, pensando que ela vai se decompor naquele mesmo espaço e vai gerar (raiz e parte aérea) essa construção do solo. “Aí a gente começa a colher uma série de benefícios desse processo de construção, porque tu começas a resolver os dois problemas e não só um”, destacou.

4 – PLANTAS DE COBERTURA: GRAMÍNEAS E LEGUMINOSAS

Área de plantio de ervilhaca, excelente cobertura para culturas de inverno

É essencial prestar atenção em métodos como a cobertura de solo, que ajuda a reter a umidade de solo e vai diminuindo as perdas por evaporação, auxiliando ainda na diminuição de presença de plantas invasoras. Com o passar do tempo, a cobertura vai virar matéria orgânica e ajudará a reter água e nutrientes, auxiliando no bom desenvolvimento de toda a lavoura.

Confira como pode ser feita a cobertura de solos:

Quanto às plantas de cobertura, basicamente elas estão dentro de dois grandes grupos: as gramíneas e as leguminosas, que cumprem papéis diferentes. As gramíneas produzem muita biomassa, o que vai contribuir muito para o acúmulo de carbono. E as leguminosas produzem menos biomassa mas fixam nitrogênio, então vão diminuir a demanda de adubo nitrogenado, contribuindo menos para a cobertura do solo. “Não tem uma que é perfeita. Tem que ver o que tu precisas mais no momento e o que será cultivado na área.  O ideal seria fazer um consórcio entre gramíneas e leguminosas, assim teria um sistema próximo do perfeito. De um lado, vai cumprir um papel importante de cobrir o solo, acumular matéria seca e essa matéria seca virar matéria orgânica (gramínea). E tem o papel da adição de nitrogênio, diminuir adubos químicos (leguminosa) e também há o ponto de que esse nitrogênio entrando via planta e não via adubo, também colabora para o acúmulo de matéria orgânica ser maior. Então uma ajuda a outra e elas vão se complementando”, evidenciou Amanda.


Capim elefante (ou Cameron) pode ser usado como barreira de proteção contra ventos fortes, quando bem desenvolvido, e também proporciona uma boa cobertura de solo!


Capim elefante após corte e rebrotando


Após derrubado o capim elefante precisa secar para ser usado como cobertura de solo, garantindo matéria orgânica na área cultivada e proporcionado maior sanidade do sistema agrícola

Conheça os benefícios da cobertura de solos: 

Saiba como é feita a produção de ervilhaca e aveia para a cobertura de solos:

Conheça os benefícios do capim elefante (cameron):

Dentro desses dois grupos (gramíneas e leguminosas) não existe uma planta perfeita, e a escolha depende do arranjo, da disponibilidade que o produtor vai ter, das sementes disponíveis e do custo para ele implementar o processo. É possível realizar a cobertura de solo com braquiária, capim cameron (ou elefante), aveia, milheto e arroz, por exemplo.

5 – SISTEMA DE PLANTIO DIRETO DE HORTALIÇAS (SPDH): BENEFÍCIOS PARA O SOLO, PARA A PRODUÇÃO E PARA O MEIO AMBIENTE


Solo após Sistema de Plantio Direto de Hortaliças (SPDH) (esquerda) e solo sem implementação de SPDH (direita). Nota-se a diferença no aspecto saudável do solo após uso do sistema

Integrando os métodos conservacionistas de solo, o Sistema de Plantio Direto em Hortaliças (SPDH) é capaz de tornar o solo mais produtivo, proporcionando significativos resultados ao longo dos anos. O sistema segue três princípios básicos: o revolvimento localizado do solo (restrito às covas ou sulcos de plantio); a diversificação de espécies pela rotação de culturas (com a inclusão de plantas de cobertura para produção de palhada); e a cobertura permanente do solo.

O SPDH tem relevante papel na redução da temperatura do solo, dos processos erosivos e da necessidade de uso de agrotóxicos, garantindo também a manutenção de maior umidade (sem promover o acúmulo excessivo de água). E estes fatores mostram o poder dele de promover a adaptação dos sistemas produtivos agrícolas aos impactos das mudanças ambientais em curso, especialmente aquelas relacionadas ao clima. Além disso, o SPDH promove o aumento nos estoques de carbono do solo e a redução das emissões de gases de efeito estufa, o que o torna uma importante ferramenta de mitigação das mudanças climáticas globais.


Semeadura em SPDH na propriedade do horticultor Elton Bobsion, em Maquiné-RS

“Hoje quando falamos de solo e saúde, qualidade do solo, solo sustentável ou segurança do solo, o elemento central é o carbono. Porque é a matéria orgânica que vai dar essa série de benefícios mencionados aqui. Além disso, outros problemas que temos para resolver, às vezes problemas que a cidade gera, como emissão de gases de efeito estufa, podem ser também solucionados – ao menos em parte. O acúmulo de carbono no solo é uma forma de mitigar a emissão desses gases de efeito estufa, porque tu estás sequestrando esse carbono que poderia ser emitido na forma de CO2. As plantas fixam ele pela fotossíntese e, após a decomposição e humificação, ele fica sequestrado lá dentro dos agregados do solo, trazendo benefícios para o produtor e para as plantas que estão ali. E, também, para a sociedade como um todo. Podemos resolver questões “dentro da porteira” e “fora da porteira” com uma produção de alimentos de forma sustentável, como é o caso do SPDH para as olerícolas”, expôs Amanda.

6 – A TECNOLOGIA DA NATUREZA: PROCESSOS DE COOPERAÇÃO COMO UM NOVO HORIZONTE PARA A HORTICULTURA

Amanda destaca a compreensão dos processos naturais como um dos grandes avanços para a produção de alimentos. “Uma coisa que falamos muito é que temos que sair somente da agricultura de insumos, de parar de ficar esperando pelo “produto milagroso” que irá resultar em uma produção maior; e partir para uma agricultura de processos, que é entender os processos naturais, os ciclos da natureza, e usar isso a nosso favor.  Isso que vai nos trazer uma produtividade maior, não ficar altamente dependente de uma coisa externa ao que está ali, mas entender o que está ali e manejar esse processo, adicionando apenas os insumos estritamente necessários”, expôs.

Confira os benefícios da integração entre agricultura e pecuária:

Ela também destaca o benefício de plantas de cobertura, extremamente importantes para proteger o solo e acumular a matéria orgânica, especialmente quando aliadas à ação de animais em pastejo. Ou seja, adicionar a pecuária junto a um sistema que é só agrícola. “A gente já sabe que se forem respeitados todos os parâmetros que temos da pesquisa, como o de manter a altura do pasto, não é gerada a compactação do solo. E essa planta, como ela cresce mais porque tem o estresse da herbivoria com a presença do animal, ela cresce mais em parte aérea e, consequentemente, vai ter que buscar mais recursos no solo (água e nutrientes). Então, também vai crescer mais em raízes. E esse maior enraizamento que elas tem quando são pastejadas, resulta em muitos benefícios para a estrutura para o solo, para o acúmulo de carbono e para agregar uma maior diversidade de fauna também”, ressaltou. A integração da lavoura e da pecuária, trazendo um componente animal para o campo, impacta na fauna do solo trazendo predadores de pragas das culturas de interesses. Logo, animais como aracnídeos, que predam pragas, são trazidos para a área devido a presença de outros animais. “O famoso besouro rola-bosta, por exemplo, só estará presente no ambiente quando houver esterco. E é um inseto que cumpre um papel extremamente importante de ciclagem de nutrientes e na construção de bioporos no solo”, revelou Amanda.

7 – AGROFLORESTAS SINTRÓPICAS: O ÁPICE DE SISTEMAS SUSTENTÁVEIS


Área de agrofloresta do Sítio Arvor(e)ser, em Viamão (RS)

Além da integração da agropecuária, existem os sistemas agroflorestais, que trazem como componente fundamental a floresta. Proporcionando muitos benefícios para os produtores, natureza e consumidor final, a agrofloresta consiste em uma forma de agricultura que harmoniza a produção de alimentos com os princípios da floresta, resgatando conceitos de abundância e simbiose. É um sistema de produção baseado em processos, onde a cooperação entre os seres é fundamental.

Lembrando que tudo que vai para cima, também cumpre um papel e cresce para baixo, este tipo de sistema se destaca pela alta capacidade das raízes de árvores em armazenar e ciclar nutrientes do perfil de solo onde está. “Por mais que o nosso clima e as chuvas façam com que o nutriente lixivie no perfil, as raízes das árvores trazem ele de volta. É como se fosse uma espécie de bombeamento biológico de nutrientes, que resultará em menor dependência da entrada de insumos como os fertilizantes”, anunciou Amanda.


Início de área de produção de hortaliças em sistema de agrofloresta na Estação Experimental da ISLA Sementes, em Itapuã (RS)

Os sistemas agroflorestais consistem na cooperação entre uma quantidade enorme de espécies, todas em equilíbrio, mas ainda existem desafios para a sua implementação em larga escala. “Por que as pessoas não fazem? Porque as coisas deixam de ser simples, baseadas somente no indivíduo, e passam a ser muito mais complexas, pois tu tens que lidar com uma comunidade de plantas e não apenas uma espécie. É um desafio muito grande! A gente também não tem uma receita para o sistema agroflorestal perfeito. Cada produtor vai construir o seu, baseado nas condições de clima e solo de sua região, das espécies nativas dali, etc. Tem uma frase clássica do Dirceu Gassen, que fala o seguinte: a rentabilidade e/ou a produtividade de qualquer sistema é equivalente à dose de conhecimento que a gente aplicar naquela área, e é exatamente isso, para tudo”, finaliza Amanda, incentivando a busca por informação de qualidade e conhecimento científico, capazes de promover uma alimentação mais saudável no país.

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